sábado, 11 de fevereiro de 2012

Entrevista com Padre Gabriel Amort - Presidente da Associação Internacional dos Exorcistas

 







Pe. Gabriele Amorth, famoso exorcista
Exorcista da diocese de Roma: alerta quanto ao importante avanço do demônio




            Revmo. Pe. Gabriele Amorth, da Pia Sociedade de São Paulo, muito apreciado na Itália por seus livros sobre Nossa Senhora e sua atividade jornalística - seu programa na Radio Maria peninsular conta com 1.700.000 ouvintes -, tornou-se mundialmente conhecido com o lançamento de sua obra Um exorcista conta-nos, em 1990.
Tal obra alcançou notável êxito editorial na Itália, tendo sua tradução portuguesa obtido várias edições. A partir de então, a mídia internacional vem focalizando a atuação desse sacerdote, nomeado Presidente da Associação Internacional dos Exorcistas.


            Solicitadíssimo por inúmeras pessoas necessitadas de amparo contra as insídias diabólicas, o Pe. Amorth exerce intenso e extenuante trabalho apostólico. Mesmo assim, marcou um horário para receber nosso enviado especial, Sr. Nestor Fonseca, a quem acolheu amavelmente, juntamente com o fotógrafo, Sr. Kenneth Drake, na Casa-Mãe da Pia Sociedade de São Paulo, na Cidade Eterna, no dia 26 de junho último. E durante aproximadamente duas horas foi respondendo, com a segurança de um zeloso e experimentado exorcista, às múltiplas e complexas questões que lhe foram sendo apresentadas. Abaixo transcrevemos partes da substanciosa entrevista.
*    *    *


Catolicismo Todas as pessoas sofrem as insídias e as tentações diabólicas, acontecendo de uma mesma tentação voltar  a se repetir muitas vezes. Podemos dizer que tal tentação torna-se um estado de perseguição do demônio?




Pe. Amorth - Devemos distinguir a ação ordinária da ação extraordinária do demônio. A ação ordinária é a de tentar-nos. Por conseguinte, todo o campo das tentações pertence à ação ordinária diabólica à qual todos somos sujeitos e o seremos até a morte.



A tal ponto somos sujeitos a essas tentações, que Jesus Cristo, fazendo-se Homem, aceitou ser tentado por Satanás, não apenas nas três tentações do deserto, mas durante toda a sua vida, como também ocorreu com Maria Santíssima. Isto porque a tentação faz parte da condição humana. Esta é a ação ordinária do demônio, como dizia o Catecismo de São Pio X, “por ódio a Deus, [o demônio]tenta o homem ao mal”. Ou seja, por ódio a Deus, o demônio gostaria de arrastar-nos todos para o inferno.

A ação extraordinária, por sua vez, é uma ação rara. É aquela na qual o demônio causa distúrbios particulares. Portanto, não se trata de simples tentação. Distúrbios particulares que podem chegar  à possessão diabólica.


Catolicismo  -  Que tipos de distúrbios podem ocorrer? V. Revma. poderia classificá-los e, ao mesmo tempo, dar as razões da existência de tais distúrbios?


Pe. Amorth - Não existem dois casos iguais. Já fiz mais de 40 mil exorcismos. Entendamo-nos. Não a 40 mil pessoas, pois em muitas delas eu fiz centenas e centenas de exorcismos. Pois livrar uma pessoa do demônio, geralmente, constitui um trabalho MUITO lento.
Como escrevi em meu livro Um exorcista conta-nos, fico bastante contente quando uma pessoa se livra do demônio, após quatro ou cinco anos de exorcismos, com a média de um exorcismo por semana. Conheço pessoas que ficaram livres do demônio após 12 ou 14 anos de exorcismos seguidos. Portanto, muitos exorcismos feitos à mesma pessoa.
Uma pessoa pode levar vida normal com sofrimentos, de maneira que aqueles com os quais convive nem se dêem conta de que está possessa. Apenas quando sobrevêm os momentos de crise, então ela se comporta de uma maneira inteiramente anormal, não podendo cumprir seus deveres de trabalho, de família, sem excessiva dificuldade. Em alguns casos, a pessoa pode ser assaltada pelo demônio, digamos, 24 horas ao dia. Em tal caso, a pessoa não pode fazer nada. Mas são casos raríssimos.
Normalmente o demônio apenas em certos momentos investe contra a pessoa e se manifesta, sobretudo quando é obrigado a fazê-lo durante o exorcismo.


Catolicismo  - E qual é a causa para que o demônio permaneça mais ou menos tempo na mesma pessoa?




Pe. Amorth - A expulsão do demônio depende de uma intervenção extraordinária de Deus. Ou seja, cada expulsão do demônio constitui um verdadeiro milagre. E Deus pode praticá-lo a qualquer momento. Nós, exorcistas, podemos prever, através de algo que nos oriente, quanto tempo ser-nos-á necessário para expulsar o demônio de uma pessoa.



Por exemplo, uma criança. É mais fácil expulsar o diabo de uma criança que de um adulto. O mesmo passa-se em relação a uma pessoa que nos procura logo após ter sido possuída, uma vez que o demônio ainda não teve tempo de deitar raízes naquela pessoa. O primeiro exorcismo fala em “erradicar e expulsar o demônio”.

Ao contrário, torna-se muito mais difícil quando sou procurado por pessoas de 50, 60 anos, e ao fazer-lhes exorcismos falando com o demônio - pois eu falo diretamente com o demônio quando a pessoa está endemoninhada -, descubro que às vezes a pessoa era criança ou ainda se encontrava no próprio seio materno quando sofreu os primeiros ataques do Maligno.




Catolicismo -  V. Revma., há pouco, referindo-se à expulsão do demônio de um possesso, disse que ela constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus...


Pe. Amorth - Certo. A libertação de uma pessoa da ação do demônio constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus. Aliás, tenho disso um exemplo, ocorrido na semana passada. Um caso muito difícil de possessão diabólica e eu tinha razões suficientes que levavam a prever muitos anos de exorcismos para se libertar aquela alma das garras do demônio.
Acontece que tal pessoa foi ao Santuário de Lourdes, na França, tomou banho na piscina, acompanhou a procissão do Santíssimo Sacramento, rezou muito. Resultado: um milagre! Voltou para casa completamente livre da possessão.


Catolicismo  - V. Revma. poderia dar uma explicação a nossos leitores, ainda que sucinta, da necessidade do exorcismo e dos exorcistas?


Pe. Amorth - O exorcismo é constituído de várias orações oficiais feitas em nome da Igreja, e Deus ouve essas orações. Com efeito, existem tantas razões para isso! O exorcismo depende muito das causas que determinaram a possessão diabólica, uma vez que estas exercem muita influência sobre o possesso. Dou-lhe um exemplo simples.
Se uma pessoa se consagrou a Satanás e fez o pacto de sangue com ele, é fácil entender que ela praticou um ato voluntário de doação de si mesma ao Maligno. Então, libertar tal pessoa torna-se muito mais difícil, faz-se necessário muito mais tempo do que o empregado para libertar um inocente, que foi vítima de um malefício causado por outra pessoa.


Catolicismo - Pelo que V. Revma. afirmou acima, o exorcismo não constitui o único modo de uma pessoa fazer cessar a possessão. Haveria outras?  Porque com a atual dificuldade em encontrar exorcistas…


Pe. Amorth - Pode-se libertar da possessão com o exorcismo, que é uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos exorcistas - pouquíssimos, quase inencontráveis. Outra forma, aberta a todos,  são as orações de libertação. No final de meus livros eu acrescento orações de libertação que sugiro. As orações mais eficazes são as de louvor, glória a Deus. Assim nós também muitas vezes, nos próprios exorcismos, recitamos o Credo, o Glória, o Magnificat, Salmos, trechos da Bíblia, o Evangelho em que Jesus liberta os endemoninhados. Elas têm grande eficácia.




Catolicismo - Os demônios têm nomes?




Pe. Amorth - Quando constringidos pelo exorcista a dizer seus nomes, costumam apresentá-los. Os que têm nomes bíblicos ou de tradição bíblica, são demônios fortes e é muito mais trabalhoso exorcizá-los. Continuamente dão nomes como Satanás, Asmodeu, Lilite, denominações igualmente importantes.



O nome Lúcifer é de tradição bíblica e não um nome bíblico. Ou seja, nós o atribuímos à Bíblia, mas esta não cita Lúcifer. Encontramos freqüentemente um demônio de nome Zabulom. O nome Zabulom, encontramo-lo na Bíblia, mas nunca como demônio. Zabulom é uma das 12 tribos de Israel. Há um demônio, porém, que tomou posse desse nome e é um demônio fortíssimo.

Encontramos nas Sagradas Escrituras o demônio Asmodeu. Deparo-me muitíssimas vezes com ele, porque é o demônio que destrói  os casamentos. Ele rompe os matrimônios ou os impede. É tremendo!  
            Uma pessoa possuída ou possessa, in genere, pode estar dominada por muitos demônios. Temos um exemplo no Evangelho, quando Nosso Senhor interroga os endemoninhados de Gerasara e  pergunta: “Como te chamas?” E o demônio responde: “legião”, porque são muitos.
            Lembro o caso de um demônio fortíssimo que possuía uma freira, uma possessão tremenda (às vezes, são vítimas que se oferecem pela conversão dos pecadores e sofrem esta espécie de possessão). Quando eu lhe perguntava o número, respondia-me: “Milhares!” “Milhares!” “Milhares!”


Catolicismo - A TV, de um modo geral, com programas incentivadores de práticas de magia e espiritismo, bem como desagregadores das tradições cristãs e da família, têm colaborado ponderavelmente para o incremento do satanismo? E o rock satânico, tem concorrido para a disseminação do poder do demônio?


Pe. Amorth Quando foi inventada a televisão, o Padre Pio ficou furioso. E a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: “Verá que uso farão dela!” Com efeito, a TV é corrupção da juventude e igualmente dos velhos! Ouso acrescentar: é também a corrupção dos padres, dos sacerdotes e das freiras. Com os espetáculos contínuos de sexo, de horror, de violência... A Internet é ainda pior, a Internet é ainda pior, repito.
            Certa vez, ao fazer um exorcismo, falando com o demônio, ele dizia: “A televisão, fui eu que a inventei!” Eu afirmava: “Não! Tu és um mentiroso! A televisão é uma grandíssima invenção do homem. Tu inventaste o mau uso dela, a fim de corromper as pessoas”.
Todos sabemos que existe o nudismo. Todos sabemos que haverá [já houve, em Roma], dentro de alguns dias, uma manifestação de homossexuais! Uma demonstração do vício, o pecado que isso representa! Ali está, não há dúvida, a ação do demônio.
            No caso acima, existe a atividade ordinária do demônio de tentar o homem, mas também a atividade extraordinária do demônio, que se serve da ocasião para possuir as pessoas que promovem essas coisas.
            Quanto ao rock satânico, é tremendo. Pode conduzir à possessão diabólica porque ensina o culto a Satanás. E pouco a pouco, através do culto a Satanás, chega-se a ser possuído por ele. Satanás é esperto, introduz-se sem nunca fazer-se sentir. Pode-se começar com simples jogos de cartas, de tarôs, e, através dos jogos, saber se vai ganhar na loteria, adivinhar acontecimentos, doenças de amigos. E, pouco a pouco, vai-se sendo possuído pelo demônio. O diabo age assim: atua sem se fazer sentir.


Catolicismo - As doutrinas marxistas e sua aplicação concreta contribuem, de modo considerável, para a difusão do satanismo na sociedade contemporânea?




Pe. Amorth - Sim. Tenhamos presente que assim como o demônio pode possuir uma pessoa, pode igualmente possuir uma classe de pessoas, pode assumir o governo de uma nação.

            Exemplifico. Estou convicto de que Hitler, Stalin, eram possuídos pelo demônio e que o nazismo - em massa - era possuído pelo Maligno. Auschwitz, Dachau: não podem ser explicadas as atrocidades cometidas nesses lugares sem se cogitar numa perfídia verdadeiramente diabólica. E não há nenhuma dúvida de que o demônio influiu muitíssimo no mundo cultural. O demônio quer distanciar o homem de Deus.
            Por outro lado, tivemos pela primeira vez na História um fenômeno profetizado em Fátima - 1917, 13 de julho -, a aparição mais importante de Nossa Senhora em Fátima, aquela na qual encontram-se os segredos e em que Nossa Senhora fez ver o inferno.
Nessa ocasião, entre outras coisas, profetizou: “Se não obedecerem minhas palavras, a Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. Nunca aconteceu que o povo tivesse sido instruído para o ateísmo. Em Moscou, entretanto, existia uma Universidade do ateísmo, na qual se formavam os participantes do Partido e se ensinava como atuar para destruir a religião em uma nação religiosa. Jamais, no passado da humanidade, ensinou-se o ateísmo. Foi uma novidade de nosso século, devido ao comunismo que espalhou o ateísmo por todo o mundo.


Catolicismo  - A falta de fé seria a principal e mais profunda causa do aumento do poder satânico no mundo atual?


Pe. Amorth - Sempre. É matemático. Examinando toda a história do Antigo Testamento, a história de Israel, quando esta abandona Deus, entrega-se à idolatria. É matemático, quando se abandona a Fé, entregamo-nos à superstição. Isto aplica-se, em nossos dias, a todos nós do mundo ocidental. 
            Tomem as velhas nações da Cristandade medieval. A católica Itália, a França, a Espanha, a Áustria, a Irlanda, que uma vez foram nações cujo catolicismo era forte. Agora o catolicismo tornou-se fraquíssimo. Na Itália, de 12 a 14 milhões de italianos freqüentam atualmente sessões de bruxaria e cartomantes. Há no país aproximadamente 65.000 bruxos e cartomantes, muito mais que o número de sacerdotes.
Existem também na Itália de 600 a 700 seitas satânicas. E 37% da juventude italiana participaram algumas vezes de sessões espíritas, acreditando ser um mero jogo...
            Um movimento dirigido por um sacerdote ensina aos pais como falar com seus filhos falecidos... Isto é espiritismo puro. Em outros tempos o espiritismo exercia-se através de um médium em estado de transe, e o médium evocava a pessoa.
O espiritismo consiste em evocar um defunto para interrogá-lo e obter dele respostas. Agora não é mais necessária a presença do médium, pois pratica-se o espiritismo através do gravador, do televisor e da Internet... Os dois meios mais usados são gravadores e escritura automática. A página mais lida dos jornais é o horóscopo... e os quotidianos não são comprados pelos analfabetos. São os industriais, os políticos, que não tomam decisões sem antes ouvir um bruxo. Ou seja, sempre que diminui a Fé, aumenta a superstição.
            Por exemplo, faz-se um referendum na Itália para a defesa da família, vence o divórcio; faz-se um referendum em defesa da vida, vence o aborto. E isto na católicaItália... Não nos espantemos, Satanás é poderoso. Nosso Senhor o chama por duas vezes“Príncipe deste Mundo”.  São Paulo o chama “Deus deste mundo”. São João diz:“Todo mundo jaz sob o poder do Maligno”.
E quando o demônio tenta Nosso Senhor, leva-O ao alto do monte, fá-Lo ver os reinos da Terra, e diz: “São meus, e os dou a quem quero e se tu te ajoelhares diante de mim...” . Jesus não lhe responde: “Tu és um mentiroso, todos os reinos são de meu Pai. É Ele quem dá a quem quiser”. Não, não. A Escritura diz: “Tu ajoelhar-te-ás somente ante teu Deus”. Nosso Senhor não contradiz o demônio.
            Hoje tantos ajoelham-se diante de Satanás para obter sucesso, prazer, riquezas - as três grandes paixões do homem! E o demônio oferece o sucesso, o prazer, a riqueza, mas sempre unidos a terríveis sofrimentos.  Vemos o sucesso, vemos o dinheiro. Imaginamos que aquela pessoa é feliz. Não é verdade, pois o demônio só pode praticar o mal. Por conseguinte, as pessoas que se entregam ao demônio têm o inferno nesta vida e na outra. Aqui um inferno dourado, mascarado de sucesso, e depois... o fogo eterno!


Catolicismo -  Qual a influência do chamado progressismo católico nessa decadência da virtude teologal da fé?


Pe. Amorth -  Hoje, infelizmente, existem teólogos e exegetas que negam até mesmo os exorcismos de Nosso Senhor. No meu último livro - Exorcismos e Psiquiatras - dedico um  capítulo aos exorcistas franceses; apenas cinco de um total de 105 crêem e fazem exorcismos, os outros... não crêem neles. Em um de seus congressos, convidaram para falar exegetas que negam os exorcismos de Nosso Senhor. Afirmam eles tratar-se de uma linguagem apenas cultural e que o Redentor adaptava-se à mentalidade da época, mas que, na verdade, aquelas pessoas eram apenas loucas e não possessas.
            Essas prédicas de exegetas influíram nos espíritos dos Bispos, dos padres etc.


Catolicismo - Quais as razões que levam Bispos católicos a se desinteressarem inteiramente da temática demônio, abandonando assim os fiéis à ação preternatural, crescente nos dias atuais?




Pe. Amorth  -- Não há razão para se impressionar com minha resposta. No Evangelho, Nosso Senhor diz: “O demônio é fortíssimo”. Isto está muito claro. É fortíssimo e conseguiu, com sua habilidade, fazer-nos crer que [ele] não existe, coisa que mais lhe agrada. Porque pôde realizar isso nestes séculos - pois já faz três séculos que faltam exorcistas. E isso explica meu combate aos Bispos, aos padres que não crêem na ação do demônio. Eu os critico fortemente.

            Julgo que 90% dos padres e dos Bispos não crêem na ação extraordinária do demônio. Talvez existam alguns! TALVEZ, TALVEZ. No Concílio Vaticano II, alguns Bispos já afirmavam que não existia!...  Durante o Concílio, hein! Diante da Assembléia Conciliar! Repito: tenho por certo que 90% dos Bispos e sacerdotes não crêem na ação extraordinária do demônio.




            Razão pela qual há três séculos, na Igreja latina, verifica-se uma escassez espantosa de exorcistas. Na Alemanha, nenhum! Na Áustria, nenhum! Na Suíça, nenhum! Na Espanha, nenhum! Em Portugal, nenhum! Quando eu digo “nenhum”, não estou afirmando que não existam um, dois, mas de tal maneira não são encontrados, que os considero como inexistentes.
Em uma cidade européia, importante centro de peregrinação, temos uma livraria Paulina.  Quando lá estive, dei-me conta, através de um livreiro amigo, que dispunham de meu livro na livraria, mas escondido. “Os Bispos disseram-nos para tê-lo escondido, e não expô-lo! De não expô-lo!”
            Por outro lado, há muitos Bispos que não nomearam exorcistas. Um Prelado famoso - o Cardeal Todini, que foi Arcebispo de Ravena -, numa transmissão televisiva jactou-se de nunca ter nomeado exorcistas! Esta, infelizmente, é a situação na qual nos encontramos.
Catolicismo - V. Revma. baseia-se em alguma escola espiritual, em algum Santo, para tomar uma posição tão louvável quanto destemida?


Pe. Amorth - Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX. Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas. Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto sequer foi levantado.




Catolicismo - Pe. Amorth, que conselho V. Revma. poderia dar-nos  e a  nossos caros leitores para nos precavermos contra eventuais malefícios (macumbas, por exemplo) que se queiram fazer para nos prejudicar?


Pe. Amorth - O conselho número um consiste em ter fé. Depois, viver na graça de Deus. Se se vive em estado de graça,  está-se protegido, é mais difícil que a macumba nos atinja. Porém, se se é realmente atingido, é necessário recorrer-se aos exorcismos, a muitas orações, a muitos sacramentos e, com a graça de Deus, se é libertado. Mas pode ser que Deus permita que se continue no estado de possessão, para o bem espiritual da própria pessoa. Assim, São João Crisóstomo afirma que o demônio, malgrado ele próprio, é o grande santificador das almas…

Ouvir para perceber a vontade de Deus

 

Muitos sofrem por conta da inércia em que vivem e porque não sabem ouvir a Deus. Então, quase sempre, não dão passos concretos rumo à vontade divina em suas vidas; ou até tentam caminhar, mas porque não param para ouvir ao Senhor e perceber qual é a vontade divina, erram muito ou nada acontece...


Em razão dessas frustrações vividas lançam sobre o Senhor suas revoltas e, com isso, acabam distanciando-se das graças celestes.
Quantas vezes ouvimos: “Preciso saber qual é a vontade de Deus em minha vida”; “Deus não olha para mim”; “O que Deus quer de mim?”; “Por que o Senhor não realiza os meus sonhos”?;


“Onde está Deus?”. Questionam, mas não refletem sobre a maneira como vivem, sobre os erros, sobre a falta de fé, sobre a falta de obediência à voz divina, que fala em nosso interior por meio da nossa consciência, da leitura da Bíblia, do que acontece à nossa volta, por meio de uma partilha transparente com o nosso próximo


... Por isso é preciso estarmos atentos, controlar a nossa ansiedade, acalmar o nosso coração por meio da oração, ouvir a Deus, obedecê-Lo e ser feliz cumprindo sempre e em primeiro lugar a vontade d'Ele, a qual nem sempre agradará o nosso coração.


Por causa do nosso egoísmo, muitas vezes, sofremos, porque insistimos em fazer a nossa vontade achando ser o melhor para nós. Agindo assim, acabamos desviando-nos das graças reservadas para a nossa vida. O Senhor nos criou e sabe o que é melhor para nós.


Por outro lado, é preciso também dar passos concretos em direção à vontade divina, sinalizada para a nossa vida. Por exemplo, diante de escolhas vocacionais no âmbito religioso, se nós não buscarmos orientação e informação junto às instituições que possam acolher o nosso chamado, ficaremos somente com a vontade de servir ao Senhor, mas não concretizaremos o sonho d'Ele em relação a nós.


O mesmo irá acontecer também se diante de um desemprego, não batermos às portas das empresas, espalharmos currículos, anunciarmos para os outros que estamos precisando de uma oportunidade, ou seja, se não irmos à luta nada vai acontecer.


Quando assumimos que somos obra-prima de Deus e reconhecemos o amor d'Ele por nós, então, sabemos que Ele quis, quer e quererá sempre o melhor para nós. Somos filhos amados, mas incapazes de decidir por nós mesmos. Fomos criados para obedecer e a própria Palavra de Deus nos orienta por intermédio do exemplo de Jesus, modelo incontestável de obediência e docilidade no acolhimento da vontade do Pai:


“E encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente até à morte – e morte de cruz! Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que, em o Nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua confesse: ‘Jesus Cristo é o Senhor’ para a glória de Deus Pai” (Filipenses 2, 7 a 11).


Entretanto, é preciso termos a consciência de que a obediência é fruto da humildade. Só obedece quem renuncia ao seu querer para que se concretize o querer de Deus. Estabelece-se uma grande luta interior nesse processo, mas é lindo deixar o Todo-poderoso vencer em nós.


É lindo aceitar o tempo d'Ele em nossas vidas para assim colhermos os frutos também no momento certo, podendo com isso experimentar a verdadeira paz, a qual não comporta arrependimentos, mas confirma a vontade do Senhor para nós.
Irani Florencio



Fonte:http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=11455

É necessário que eu diminua



Era uma vez um servo fiel de um grande senhor. O castelo do senhor contemplava um tempestuoso canal que separava seus domínios das terras de uma linda senhora. O servo, que cuidava dos arquivos do senhor, havia encontrado um antigo pergaminho que provava que ele, o servo, e não o senhor, era o verdadeiro e legítimo herdeiro da propriedade.


O servo amava secretamente a bela senhora. Ele a havia conhecido certa feita quando acompanhara o senhor numa de suas visitas a ela. Quando encontrou o extraordinário pergaminho, o servo resolveu que, no momento oportuno, não só iria reivindicar sua legítima herança, como também iria pedir a senhora em casamento. Pois, agora, estaria no mesmo nível social que ela, e ela não iria desprezá-lo.


Uma tarde ele ouviu dizer que a senhora vinha a caminho, pelo canal, para uma visita ao senhor. Esta seria a sua oportunidade. Quando ela chegasse, ele retira¬ria o documento das obras de sua veste e reclamaria tanto a herança como a mão da senhora.


Quando o dia já caminhava para o fim, o servo acompanhou o senhor até as margens do canal, e juntos passeavam sobre o quebra-mar, enquanto aguardavam a chegada do barco da senhora. Surgiu, porém, uma grande tempestade, e o barco foi apanhado pela chuva e pelos ventos adversos. Uma enorme escuridão recaiu sobre o mar e a praia.


Receando que o barco não pudesse encontrar o caminho através da escuridão, o senhor ordenou que acendessem uma fogueira que servisse de farol. Nada, porém, queria pegar fogo. A pesada chuva havia encharcado tudo o que pudesse servir de material combustível. Não havia material algum que pudesse inflamar¬se, nem musgo seco, nem raspa de madeira para iniciar uma chama.


Temendo que a senhora chegasse a se afogar na tempestade, o servo puxou o pergaminho, única esperança e prova do seu futuro, e o acendeu. O barqueiro avistou a chama, dirigiu o barco no rumo certo através da escuridão, e o trouxe com segurança até o atracadouro.


A senhora desembarcou e atirou-se nos braços do senhor, rendida de amor. O servo ouviu a voz do senhor, que cumprimentava a senhora com palavras temas de amor ardente. Seu coração sobrepujando o próprio infortúnio, rejubilou-se com a felicidade da mulher que amava, e com a felicidade do senhor, a quem servia com lealdade e a quem amava como amigo. Vieram-lhe à mente as palavras de João Batista: "O amigo do esposo, que está presente e o ouve, é tomado de alegria à voz do esposo. Essa é a minha alegria e ela é completa" (Jo 3,29).


No íntimo do coração, o servo criou o brasão de sua verdadeira nobreza, inscrito com as palavras de João: "É necessário que ele cresça e eu diminua" (Jo. 3,29).


Mesmo antes de ser a de João Batista, esta foi a história de São José. É a história de cada um de nós. Ninguém que ame de verdade jamais aprisiona sua amada sob seu jugo. Afasta-se dela; sai de sua vida, se necessário, para que ela se tome o que foi chamada por Deus para ser.


O anjo esclarece José sobre o divino mistério que se opera em Maria: "José - diz ele - Deus, o Altíssimo, pelo poder de seu Espírito, tomou Maria como esposa e formou-lhe um filho em seu ventre. Em respeito à tua bem-amada Maria, deixe-a viver a fase mais nobre de si mesma! Deixa-a fruir seu profundo relacionamento com o Senhor Deus e ela ser-te-á mais preciosa ainda!".


A resposta a tudo isso no coração de José deve ter sido um alegre: "É necessário que ele cresça e que eu diminua". José afasta-se de Maria. Consente em ficar de lado para que ela possa tomar-se em toda a sua plenitude aquela pessoa que Deus desejava que ela fosse: a esposa do Espírito Santo e a mãe de uma obra divina de amor, juntando toda a humanidade no amor.


E, além disso, maravilha do amor de Deus, apesar de tudo, José recebe Maria como sua e, com ela, recebe também a Deus! "José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu chamarás com o nome de Jesus (Mt 1,20). Como esposo de sua mãe, terás o privilégio de pai de lhe dar o nome. Aceitá-lo-ás como teu filho, uma vez que aceitarás a mãe dele como esposa".


A isto, a resposta dentro do coração de José deve ter sido um alegre: "Sim, é preciso que eu diminua; não preciso, porém, desaparecer de sua vida!".Deixando, respitosamente Maria ser ela própria, o carinhoso amor de José para com ela tornou-se mais rico ainda ao aceita-la. De boa vontade concordou viver com ela em celibato. Em seu reverente amor, respeitou-a como esposa do Senhor Deus, e aceitou a condição de que ela permanecesse sempre virgem. "Embora eu precise diminuir, ainda as¬sim terei a felicidade de continuar a amá-la e de viver em seu amor" .


Uma vez que o amor deseja que a pessoa amada seja na verdade mais ela própria, que o verdadeiro amor de si mesmo só se encontra na comunhão com o Senhor, todo amor deve ter o espírito celibatário: profunda reverência com a pessoa amada, como pertencente ao Senhor! Mais cedo ou mais tarde aquele que ama terá de enfrentar a realidade de que o Senhor entrou na vida da pessoa que amamos; e todo verdadeiro amigo deverá dizer: "É necessário que ele cresça e que eu diminua.


Pois somente o Senhor Deus poderá satisfazer o coração humano. Em todo o coração existem profundezas infinitas que nenhum amigo humano poderá preencher, profundezas que somente Deus poderá preencher. Levando isso em consideração, esposos e esposas cristãos entendem o que Paulo quer dizer quando fala que eles provavelmente desejarão abster-se ocasionalmente das relações conjugais, por mútuo consentimento, a fim de se entregarem à oração (l Cor 7,5).


O que todo amigo cristão deseja acima de tudo para a pessoa amada é comunhão com o Senhor. A pessoa a quem amo, a esposa, o esposo, o amigo, pertencem, antes de tudo, ao Senhor. E, neste sentido, sou apenas o amigo do noivo. Somente ele é esposo de todo o coração humano. Ele deve crescer, enquanto devo diminuir.


Se não aprender esta lição logo no início de meu amor para com alguém, seguramente irei aprendê-lo quando eu mesmo for chamado para o Senhor na hora da morte. Para encontrar-me com ele, e para ficar plenamente unido com ele na glória, deverei separar-me de todos aqueles a quem amo. Quando morrer, deverei deixar a esposa, o esposo, os filhos, os amigos, a propriedade, o poder e as conquistas, até mesmo o próprio corpo. Somente quando tiver deixado tudo, poderei receber seu abraço total, para o qual fui criado.


Para testemunhar tal fato, de que o Senhor é o verdadeiro esposo de toda pessoa humana, algumas pessoas não esperam até que a morte os force a deixar todas as coisas. No celibato consagrado, abandonam tudo no início da juventude, de maneira que toda a vida e todas as energias fiquem canalizadas para o Senhor, o esposo, único capaz de satisfazer o coração humano.


Da mesma forma, porém, que José, embora ficasse diminuído, recebia Maria novamente do Senhor para ser amada carinhosamente e estimada como esposa, assim também celibatário recebe muitas pessoas para amar, conduzindo a missão do amor universal e sendo intermediário do próprio amor de Deus. Todo aquele que entregar ao Senhor o lugar central de seu amor, será mais rico ainda em seu amor para com as outras pessoas. E todo aquele que, na ora a morte, abandonar tudo para ficar com o Senhor, receberá novamente, através do Senhor, todos aqueles a quem amara sadiamente.


Mesmo que, no grande entrelaçamento da união pelo amor (CI 2,2), ficarmos envolvidos na mais profunda amizade com algumas pessoas em detrimento de outras, é sempre o Senhor Jesus que estará mais próximo de cada um de nós, mais perto de cada um do que a esposa ou o esposo ou qualquer outro ente querido. Se nós conseguirmos nos amar uns aos outros com o coração dele mesmo, isto somente acontecerá porque ele é o verdadeiro esposo de todos os corações.
Livro O Ministério da Amizade de Paul Hinnesbusch, O.P. editora Paulus


Fonte:  Pantokrator (comunidade Católica)

Em luta contra o demônio



- O demônio tem um papel muito relevante na vida do padre Pio. Por bem ou por mal, ele procura sempre tentar o padre, dobrá-lo à sua vontade, cansá-lo e desviá-lo com a finalidade de fazê-lo cair ou, no mínimo, desistir de sua ação em favor das pessoas.
 
Na verdade, ele ruge em torno das pessoas, para devorá-las, como diz são Pedro, e no pai-nosso Jesus nos convida a rezar e a não nos deixar cair em tentação. Por seu lado, o padre Pio adverte a seus filhos espirituais que não dêem trégua ao demônio e que fechem as portas da vontade às suas sugestões.
Mas ele mesmo, o padre Pio, tem algo que ver pessoalmente com satanás, o qual ainda que inimigo dos santos, é um instrumento da santidade.
 
Porque, no plano divino, a missão do diabo é a de colaborador, como instrumento, ou seja, contra a sua vontade e a despeito da intenção a que ele se propõe, para a santificação do homem de Deus. com o padre Pio, a obra santificadora do Espírito Santo é mais do que evidente; mas a obra do demônio, ainda que sugestivamente oposta àquela, objetivamente converge para a mesma finalidade.
Os ataques diabólicos contra o padre Pio são espantosos. O demônio apresenta-se ora por meio de formas que lhe atormentam os sentidos, ora sob um aspecto horrivelmente tenebroso, ora para atacar o intelecto e a vontade, de modo a impedir o progresso no amor de Deus.
 
O “ignominioso” atira-se sobre ele, em companhia de outras forças infernais, para suscitar-lhe “pensamentos de desespero e de falta de confiança em Deus”, para dar-lhe “a Deus” e, “sob as mais abomináveis formas”, para fazê-lo prevaricar.


Ele o tenta dia e noite, a tal ponto que o padre acredita “estar perdendo o juízo”; lança-se sobre ele, joga-o ao chão e o desnuda, atira longe seus livros, cadeiras, travesseiros; contorce-lhe os ferros do leito, emitindo “gritos desesperados e pronunciando palavras extremamente sujas”, o maldiz e promete agressões ainda mais ferozes.


O padre, reduzido a condições deploráveis, escreve a seu confessor: “Eu acreditava, realmente, que fosse aquela a última noite da minha existência”; “Agora já são 22 dias contínuos que Jesus permite a ele desafogar sua raiva sobre mim” (28 de junho de 1912; 1 e 13 de fevereiro de 1913; 18 de maio de 1913).
A permissão concedida por Jesus aos demônios é motivada pelo fato de o padre Pio constituir-se num baluarte formidável entre o demônio e as pessoas, uma almofada de proteção que impede ao demônio a passagem em direção às pessoas mais fracas e mais expostas.
 
O enfurecimento diabólico é devido não apenas ao ódio em relação ao padre, mas ao obstáculo intransponível constituído, por ele para a agressão das pessoas.


O padre Pio tem, sim, pavor de satanás, mas o que verdadeiramente o aterroriza é o pensamento de ofender a Deus; quando acena às tentações, exclama: “Estas tentações me fazem tremer da cabeça aos pés de medo de ofender a Deus [...]; não tenho medo de nada, a não ser das ofensas a Deus” (1° de outubro de 1910; 29 de março de 1911).


Está escrito (Tb 12,13): “Porque não hesitaste em levantar-te e deixar a refeição para ir sepultar um morto, eu fui enviado para pôr-te à prova”. A aspereza da prova à qual o padre é submetido faz com que se compreenda, também, o sentido purificador da intervenção diabólica permitida por Deus.


O padre grita: “Ai de mim! A mão do Senhor caiu sobre mim, oprimindo-me excessivamente. Ao redor do meu espírito não se ouve nada mais do que rugidos de bestas ferozes que me causam tanto medo a ponto de me fazer acreditar ter sido enterrado vivo no sepulcro” (19 de dezembro de 1917).
 
E volta-se para seu confessor: “Mas, padre, quais são os objetivos de Deus? Por que permite ao demônio tamanha liberdade?”; “A batalha é superlativa e extremamente áspera; tenho a impressão de poder sucumbir a qualquer momento[...] Os inimigos, todos de acordo gritam: matemo-lo, escorracemo-lo, porque é fraco e não poderá resistir por muito tempo”;
 
“Em resumo, afinal de contas, tenho a impressão de que o vencido deve ser justamente eu. Mas que digo? É possível que o Senhor permita? Jamais!” (25 de junho de 1911; 1° de abril de 1915; 9 de maio de 1915). De fato, como é ensinado na doutrina paulina, Deus não permitirá que o homem seja tentado acima de suas próprias forças (cf. 1Cor 10,13).


Quando, em seguida, a alma do padre é colocada diante daquela prova terrível que os teólogos chamam de noite escura da alma, os demônios fazem qualquer sacrifício para “ver se em tal estado lhes será possível arrancar-me do peito aquela fé e fortaleza que me vem do pai das luzes” (30 de outubro de 1914).


“Mas uma vez, nestes dias, minha alma desceu ao inferno. Mais uma vez o Senhor me expôs ao furor de satanás [...] Parece que esse apóstata infame quer me arrancar-me do coração aquilo que nele existe de mais sagrado: a fé”. Por isso, pede ao Senhor comutar-lhe “a provação em outra, ainda que mais dura” (26 de novembro de 1917).


Desse fato compreende-se como deve ter sido essa forma de purificação. Ele se examina impiedosamente, mas não encontra em si mesmo motivos de condenação, e, então, em vez de apaziguar-se, chega à conclusão dilacerante para sua alma: “O que mais me dilacera a alma é que talvez este meu penar não seja aceito por Jesus, porque é proveniente de um condutor ignominioso; e pode ser até que seja um veículo de ira” (4 de agosto de 1919).


Seu anjo da guarda, que lhe apareceu depois de uma terrível luta que teve com os demônios, disse-lhe: “Jesus permite esses assaltos do demônio porque a sua piedade o torna caro a ele, e deseja que você se assemelhe a ele nas angústias do deserto, do horto e da cruz. Defenda-se, afaste-se sempre e despreze as insinuações malignas, e não se aflija nas situações em que do meu coração, eu estou perto de você” (18 de janeiro de 1913).


As tentações são um sinal seguro da divina predileção, e as tempestades suscitadas pelo demônio são sinal certo de que se está estabelecendo na alma o Reino de Deus. as iniqüidades que o demônio comete, exercita-as por si mesmo; mas a permissão de cometê-las advém de Deus.


No texto bíblico de 1 Samuel, lê-se: “No dia seguinte, o espírito deprimente enviado por Deus apoderou-se dele” (18,19), ou seja, um espírito que é qualificado simultaneamente como espírito do Senhor e como espírito ruim: é espírito do Senhor porque obteve dele a permissão de exercitar um poder, e é espírito mau devido ao desejo de sua vontade perversa.


O espírito maligno também se torna cruel contra o padre Pio com a expressa permissão de Deus; mas, nesses assaltos diabólicos, o Senhor está sempre presente. Quando santo Antônio abade, pergunta a Deus: “Onde estavas tu?”. “Eu estava presente”, responde-lhe uma voz, “e esperava, contemplando a sua luta, e uma vez que você soube enfrentá-la e sair-se vencedor, estarei sempre a seu lado...”. (N. Conte, Santana l’avversario [Satanás, o inimigo], p.880)


O demônio se enfurece contra os santos e parece forte, aliás, fortíssimo. Entretanto, com sua vinda, Cristo tirou-lhe a força, porque apenas Cristo pode enfrentar como vencedor o mistério da iniqüidade.


Também Francisco de Assis, como o padre Pio, é atacado por satanás num furioso corpo-a-corpo, saindo da luta mais morto do que vivo. Suplica a seu padre acompanhante que permaneça próximo a ele, “porque tenho medo de estar sozinho.
 
Há pouco, os demônios venceram-me por santas razões”. E comenta: “Os demônios são os justiceiros dos quais Nosso Senhor se serve para punir nossas faltas”. Outras vezes diz aos demônios que se apresentam a ele: “Ordeno-lhes, demônios, que façam contra meu corpo tudo aquilo que lhes foi permitido”; mas os demônios, enfurecidos e humilhados, afastam-se.


O padre Pio, atacado cruelmente por seu inimigo, lamenta-se a seu diretor espiritual: “Esse espírito maligno procura, com toda sorte de fantasmas, introduzir em meu coração pensamentos de imundície e desespero [...] Encontro-me, de fato, nas mãos do demônio [...]”.
 
O diretor espiritual responde-lhe: “Por que você teme tanto o inimigo? Não sabe que o Senhor está com você e que o adversário das almas nada pode contra quem resolveu ser de Deus?” (9 e 12 de abril de 1911).


Na fase de progresso espiritual, que vai amadurecendo durante a noite do espírito, em que a obscuridade é terrível e parece faltar qualquer esperança de bem, ressurgem aqueles vícios que, ainda que mortos na alma, são revividos pelos demônios, e surgem até aqueles que jamais existiram. São trevas purificadoras, onde satanás intervém, como instrumento de Deus, pelo refinamento da alma.


Apesar de esses espíritos malditos atormentarem o padre Pio, ele os afronta com coragem e posturas desafiadoras, porque sabe que sem a permissão de Deus sequer podem mover-se.


Parece um paradoxo, mas são justamente os assaltos diabólicos impiedosos que ajudam a padre Pio na conversão das pessoas: quantas delas encontram a paz no coração por meio do sofrimento provocado pelo diabo, que, a despeito de si mesmo, colabora para o bem das almas desejado pelo santo.


Os demônios se enfurecem no horrendo túnel da noite do espírito, mas o padre saiu dele resplandecente no firmamento da Igreja.


A mensagem da experiência do padre Pio, homem de fé e de perfeito equilíbrio psico-espiritual, conclama o mudo das almas a não contestar a realidade do ser demoníaco, nem a sua poderosa, oculta e incessante ação, que pode tornar as mais variadas formas, inclusive a mais conveniente: a negação de satanás.



Revista Shalom Maná

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Assuma a autoridade de abençoar o seu lar

Ouçamos o que Deus quer nos dizer sobre a família. ´Precisamos revestir nossa inteligência na sabedoria de Deus.




Propaguemos o Terço das Santas Chagas-concederei tudo o...





TERÇO DAS SANTAS CHAGAS REVELADO À VIDENTE IRMÃ MARTA CHAMBON
Frei Elias Vella concede entrevista à Revista Isto É
Especial

| N° Edição: 2106 |

A igreja enfrenta seus demônios – Parte 1

O Vaticano reconhece a existência do diabo em suas fileiras. E prepara seu

exército para contra-atacar a presença do mal

João Loes e Rodrigo Cardoso


A igreja enfrenta seus demônios: o repórter João

Lóes comenta a matéria de capa da IstoÉ desta semana, sobre a presença do mal no

Vaticano
 
chamada.jpg




O exorcista-chefe do Vaticano, Gabriele Amorth,espantou o mundo na semana passada ao declarar, alto e bom som, que “o demônioestá à solta no Vaticano”. A justificativa para tal desabafo, que macula aresidência oficial dos católicos com a fumaça do diabo, foram os inúmeros eincômodos casos de pedofilia envolvendoreligiosos e o atentado ao papa Bento XVI no Natal do ano passado.


Casos recentes não faltam para sustentar aindigesta frase do padre Amorth, que já tem 85 anos e dedicou os últimos 25 realização de 70 mil rituais de expulsão do diabo do corpo de fiéisatormentados. Na Alemanha, por exemplo, surgiram denúncias de abusos feitos contra meninos dentro do milenar coral Regensburger Domspatzen, administrado até 1994 pelo irmão do papa, Georg Ratzinger.


No Chile, um padre espanhol daCongregação de Clérigos de São Viator foi preso com 400 horas de vídeos  que continham pornografia infantil, boa parte produzida pelo próprio sacerdote. Já no Brasil, dois monsenhores e um padre da cidade de Arapiraca, Alagoas, foramacusados de abusar sexualmente de seus coroinhas. “Quando se fala de Satanásdentro do Vaticano, é de casos como esses que está se falando”, reitera oexorcista.


Para Amorth, o diabo existe, não é uma entidade subjetiva ousimbólica, e precisa ser enfrentado. E o que poderia ser tratado como um arroubomedieval em outras épocas hoje ganha força considerável com um lobby de peso: o do próprio papa Bento XVI, que acredita no demônio e defende a volta dos rituais de exorcismo.






img5.jpg

“Quando se fala na fumaça de Satanás no Vaticano,

é de

casos de pedofilia e violência na Igreja que está se

falando”


Padre Gabriele Amorth, exorcista-chefe do

Vaticano



O sumo pontífice quer criar um exército dos sacerdotes exterminadores de demônios pelo mundo, mas tem uma tarefa árdua pela frente. Tanto o diabo quanto os exorcistas estão fora de moda pelo menos desde o


século XX. Até mesmo entre os católicos, leigos e religiosos, que considera muito caricata e teatral a figura demoníaca e preferem subjetivar o mal,deixando-o, assim, mais palatável para o racionalismo vigente. Com o advento da psiquiatria e os avanços da medicina, muito do que se atribuía ao diabo passou a

ser explicado e remediado pela ciência.


Desvios como os dos padres do coral Regensburger Domspatzen e dos brasileiros de Arapiraca ganharam nome de sintomas psiquiátricos. Até quem se diz possuído pelo demônio já tem diagnóstico reconhecido pela quarta edição do manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais, publicado em 1994 – a pessoa seria vítima de um

“Transtorno Dissociativo Sem Outra Especificação”.


A Satanás, cuja própria existência foi colocada em dúvida, sobrou o papel de representação simbólica do mal. Enquanto isso, o ofício de exorcista, em baixa, parou de atrair seminaristas. Com o tempo, um corpo de religiosos majoritariamente ignorante no assunto se estabeleceu na hierarquia clerical.


“A quase totalidade do episcopado católico nunca fez exorcismos nem assistiu a um ritual”, acusa o padre Amorth. Também boa parte dos bispos, responsáveis pela investidura do cargo de exorcista oficial a um dos sacerdotes de suas dioceses, abandonou a obrigação. Muitos não acreditam sequer na existência do demônio.






img_info1.jpg

img_info2.jpg






Bento XVI começou a tentar reverter esse quadro apartir de 2005. Mas daí a mudar a Igreja, que é um dos organismos maisburocráticos e avessos à transformação que existem, há um longo caminho. Em seus discursos e documentos, constam referências diretas a uma série de pilaresteóricos do catolicismo que ele pretende retomar.


Entre eles está, por exemplo,o reconhecimento da existência do demônio como um espírito do mal que semanifesta de forma objetiva nas atitudes dos homens. E se as ondas dessas orientações teóricas demoram para reverberar sobre a pesada estrutura clerical,nas costas dos fiéis elas parecem ter chegado com a força de um tsunami.


“Temos visto um aumento na procura por exorcismos. As pessoas estão claramente maissensíveis à influência do diabo”, afirma Ana Flora Anderson, socióloga e biblista vinculada à Cúria Metropolitana de São Paulo.


A tese é apoiada pelo frei italiano Elias Vella, autor de “O Diabo e o Exorcismo” (Editora Palavra& Prece). Ele reconhece que, entre os anos 1970 e 1990, houve uma calmarianos casos de possessão. “Hoje, os problemas demoníacos voltaram com força”,disse à ISTOÉ o religioso, que também foi exorcista. A igreja agora corre para suprir a crescente demanda, em meio a uma grave crise de vocações e uma diminuição do número de padres no mundo.









img4.jpg

“A Igreja precisa se organizar para capacitar

seus padres e fiscalizar melhor quem faz

exorcismos”


Padre Gabriele Nanni, exorcista

oficial da Diocese de Roma, que dá cursos para outros sacerdotes pelo

mundo




Um retrato do descompasso que há hoje entre asnecessidades dos fiéis e o despreparo do clero está sintetizado no livro “The Rite” (“O Rito”, em tradução livre), lançado em 2009 pelo jornalista americano

Matt Baglio. Repórter free lancer na Itália, ele resolveu acompanhar um padredos Estados Unidos durante um curso para formar exorcistas ministrado pelaprestigiada Pontifícia Universidade Regina Apostolorum, em Roma, vinculada aoVaticano.


“Achei estranho existir um programa de estudos como esse em pleno século XXI”, afirma. “Mas considerei ainda mais espantoso descobrir que muitosdos padres que estavam lá não tinham ideia do que era o demônio e como se fazia um exorcismo.” Baglio lembra ainda que os calouros se diziam marginalizados pelacomunidade religiosa de onde vieram por manifestar interesse por assunto tão

controverso.
PARTE


 
 
 

A igreja enfrenta seus demônios – Parte 2

O Vaticano reconhece a existência do diabo em suas fileiras. E prepara seu

exército para contra-atacar a presença do mal

João Loes e Rodrigo

Cardoso
 
 
 
O autor de “The Rite” levantou até números sobre a

atividade dos exorcistas no continente americano para confirmar a tese de como o

ritual está relegado. Segundo Baglio, deveria haver pelo menos 200 exorcistas

ativos nas Américas do Norte, Central e do Sul. Mas em 2009 esse número não

passava de 15. “Sei que mais de 95% dos supostos casos de possessão que chegam

aos padres acabam diagnosticados como desvio psiquiátrico. Mas e o resto, como

fica?”, questiona. O americano acompanhou 18 exorcismos genuínos na Itália e é

taxativo ao afirmar que, em alguns casos, a única solução é o ritual católico.

“São pessoas que sofrem demais, ninguém sabe por que, e buscam atenção

religiosa”, diz. Segundo o jornalista, boa parte dos rituais dura entre 30

minutos e 40 minutos, para não esgotar o possuído. Mas houve casos testemunhados

por ele que renderam três horas de luta com o diabo. “É física e mentalmente

exaustivo para todos os envolvidos”, admite.
img6.jpg

img7.jpg
Padre Gabriele Amorth, ponta de lança do movimento

que defende a existência concreta do diabo e a importância do retorno dos

exorcismos, já está aposentado da prática dos rituais. O único exorcista oficial

em atividade na Diocese de Roma atualmente é o sacerdote italiano Gabriele

Nanni, que reforça a tese de seu antecessor. “Ele está bem velhinho, mas suas

palavras são valiosíssimas, dada a riqueza das experiências que teve com o diabo

nas décadas em que serviu como exorcista oficial do Vaticano”, afirma. Nanni,

por sua vez, se tornou exorcista oficial da Diocese de Roma em 2000 e, de cara,

acumulou a função de professor da Pontifícia Universidade Regina Apostolorum.

Entre 2000 e 2005 fez uma média de dois exorcismos por semana – ao menos 520,

todos com reconhecimento oficial. Hoje, divide seu tempo entre as aulas na

universidade e os cursos que ministra no exterior. Desde 2006, por exemplo,

visita a Cidade do México pelo menos uma vez por ano para treinar sacerdotes

locais no ritual. Mas isso não os exime da necessidade da autorização do bispo

para execução de um exorcismo. “A demanda está aumentando e a Igreja precisa se

organizar para capacitar seus padres e fiscalizar melhor quem faz o rito sem

autorização”, alerta. A parte que cabe a ele tem sido feita. Nanni visitou

vários países a convite das dioceses locais para ministrar o curso. A Igreja

Católica perdeu outro célebre exorcista oficial, o arcebispo de Lusaka Emmanuel

Milingo, excomungado depois de casar com uma coreana.
img1.jpg

TRADIÇÃO

Bento XVI é fiel ao

catolicismo medieval, com demônio, pecado e fidelidade �

liturgia
Ainda vai demorar para que a legião de expulsores do

mal almejada pela Santa Sé se forme. Alguns especialistas atribuem essa carência

à debandada de fiéis para algumas igrejas evangélicas, que enxotam demônios por

atacado. Enquanto isso, o católico convicto se vira como pode. Se os exorcistas

treinados por vaticanistas e aprovados por bispos não vêm, alguns sacerdotes

católicos têm atendido aos pedidos dos numerosos fiéis que imploram pelo alívio

de uma despossessão. Padre Nelson Rabelo, 89 anos, é um deles. Há 22 anos ele

administra a Igreja Sant’Ana, uma bela construção do século XVIII encravada no

centro do Rio de Janeiro. Lá, depois da missa das 8h30 das sextas-feiras e

sábados, faz orações de cura e libertação. “Vez ou outra há pessoas que gritam,

se retorcem, choram e desmaiam”, explica (leia quadro com os sinais de possessão

na página 90). Essas são levadas a uma sala onde a manifestação recebe

tratamento. Para confirmar se é um caso de possessão, o sacerdote faz várias

perguntas. Questiona quantos demônios estão no corpo, indaga seus nomes, a que

vieram e que tipo de mal esperam fazer. Algumas vezes, ouve ameaças. “A pessoa

fica fora de si. Não é ela quem fala, mas o diabo”, explica. À medida que o

exorcismo se desenrola, os malignos vão saindo aos poucos, um por um. “Uma vez

encontrei Lúcifer numa menina de 15 anos. Ele se apresentou e disse que de nada

adiantaria a minha ação. Mas, no fim, teve que sair”, conta, com ar vitorioso.

Segundo os especialistas, a maioria dos possuídos pelo diabo é formada por

púberes do sexo feminino, personalidades muito suscetíveis.
Tocadas pelo trabalho do sacerdote do Rio, duas

devotas, a advogada Ana Claudia Cavalcante e Zulmira Maria de Rezende,

escreveram o livro “Padre Nelson, o Enviado de Deus” (Editora UniverCidade).

“Ele trata todas as pessoas igualmente sem receber um centavo”, diz Ana Claudia.

A advogada conta que nos exorcismos conduzidos pelo padre, e presenciados por

ela, as pessoas possessas reviravam os olhos, arqueavam as mãos e se arrastavam

pelo chão. “Mas não ouvi mudança de tom de voz, como normalmente se vê nos

filmes.” Uma vez, o próprio demônio denunciou o objeto da casa que havia

contaminado para impedir a cura da vítima: o colchão. De outra feita, a mulher

possuída foi ao banheiro e se autoflagelou, ficando completamente ensanguentada.

Houve também o episódio em que um jovem ficou nervoso ao receber a bênção de

padre Nelson e passou a espancar todos à sua volta. Foi exorcizado e hoje

frequenta as sessões de oração.
img3.jpg

LIBERTAÇÃO

O ex-arcebispo de

Lusaka (Zâmbia) Emmanuel Milingo pratica exorcismo na

Itália
Apesar de reconhecer a boa vontade de trabalhos como

o de padre Nelson, a Igreja oficialmente não os aprova. “Quem exorciza sem

autorização do bispo já começa errado”, sentencia dom Hugo Cavalcante,

presidente da Sociedade Brasileira de Canonistas e porta-voz da Conferência

Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele explica que o diabo é aquele que

semeia, entre outras coisas, a desobediência. E não há desobediência maior, no

rito do exorcismo, do que fazê-lo sem autorização superior. “O exorcista deve

ser um homem virtuoso e extremamente culto, senão o diabo, que é muito esperto,

pode enganá-lo”, explica Cavalcante. A opinião é compartilhada pelo teólogo

Fernando Altemeyer, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“Tem que ter malandragem para lidar com o demônio”, afirma. Hoje, a Igreja não

habilita aspirantes a exorcistas com menos de 35 anos, doutorado em teologia e

conhecimento impecável da “Bíblia” (leia quadro na página 90). São exigências

criadas para evitar não só diagnósticos de possessão errados, mas também rituais

de exorcismo incompletos. “Tem demônio que finge que saiu do corpo para depois

voltar com ainda mais força”, alerta Altemeyer.
Mas como reconhecer Satanás? A cultura popular

costuma descrevê-lo como um ser animalesco, feio, com rabo e chifres, cheirando

a enxofre e com a pele avermelhada. Para os estudiosos, essa representação

surgiu no Oriente, berço da religião católica, onde o bode, que reúne as

características físicas que hoje atribuímos ao diabo, tinha função expiatória.

Naquela época, quando alguma suspeita de feitiço pairava sobre a comunidade, um

bode era solto no deserto para vagar até a morte. Nada mais natural, portanto,

que a cultura que criou esse ritual tenha atribuído características físicas

semelhantes à do animal em questão ao demônio. “Mas ele é puro espírito e não

existe de forma material”, afirma Cavalcante, da CNBB.
img2.jpg

“A pessoa fica fora de si. Não é ela quem fala,

mas o demônio”


Padre Nelson Rabelo, 89 anos, exorcista e pároco da Igreja Sant’Ana, no

Rio de Janeiro
A origem do diabo não está na “Bíblia”, mas foi

delineada através dos tempos por teóricos da fé. A história conta que, antes de

criar o cosmo, Deus fez os anjos. Só então ele partiu para forjar o mundo

material. Alguns anjos, porém, como puros espíritos, se opuseram à criação desse

universo material, naturalmente imperfeito e aparentemente desnecessário para

seres como eles, espirituais. Alheio às vontades dos anjos, Deus não só criou o

cosmo como foi além e fez o homem à sua imagem e semelhança. Foi a gota d’água

para a oposição se revoltar. A rebelião, sob a liderança do anjo Lúcifer, foi

repreendida por Deus, que enviou os caídos ao inferno. De lá, porém, como

demônios, eles passaram a influenciar os seres humanos. São milhões os malignos

circulando pela terra, segundo a tradição católica. “Mas somos nós que deixamos

as portas abertas para eles entrarem”, explica Altemeyer, da PUC-SP.
A relação homem e demônio é longa, segundo a

tradição cristã. Desde os primeiros seres humanos a habitar a Terra. Agraciados

com uma vida sem dor e preocupação no paraíso, Adão e Eva cederam às tentações

da serpente – uma representação do diabo – e comeram o fruto da árvore proibida.

Ambos acabaram expulsos do paraíso e marcaram o início da história humana. Outro

marco importante na trajetória do demônio na terra é a chegada de Jesus Cristo.

Ela crava a vitória divina e humana sobre o demônio, mas não o extingue. Mesmo

subjugado e sem poder diante da força de Deus, ele ainda tem influência sobre o

homem. Para quem se deixou levar pela tentação do demônio e se vê possuído por

ele, criou-se o exorcismo. “Jesus e seus apóstolos, bem como todos os cristãos

primitivos, foram exorcistas”, conta frei Elias Vella. “Era um sinal de fé”,

diz.
img_info3.jpg

img_info4.jpg


Os exorcistas contemporâneos parecem trabalhar como

no princípio do catolicismo – perseguidos, com muitas dificuldades e temerosos

quanto ao futuro de seu ofício. “Meus colegas sacerdotes falam que não expulso

demônio nenhum”, conta o padre paulista Cleodon Amaral de Lima, que pratica

exorcismo há 25 anos sem investidura (leia boxe na página 92). Padre Nelson, do

Rio de Janeiro, também conhece as dificuldades do exorcista contemporâneo.

“Poucos bispos aceitam nosso trabalho”, diz o religioso, que foi expulso de duas

dioceses em Minas Gerais antes de ser acolhido no Rio de Janeiro. “Quando eu

parar com os rituais aqui na igreja, eles acabam.” Cabe ao Vaticano impedir que

isso aconteça.

Colaborou Francisco Alves Filho